Tesouro caiu de 14,21% para 12,71%: perdi a oportunidade?
Comecei a minha live de 6 de outubro de 2026 mostrando dois números: 14,21% e 12,71%. Os dois são taxas do mesmo título público, o Tesouro Prefixado 2032. Na sexta-feira, 2 de outubro, ele chegou a pagar 14,21% ao ano. Na terça, dia da live, estava em torno de 12,7%. No gráfico apareceu 12,76% naquele momento, porque a taxa muda ao longo do dia. Foi uma queda de cerca de 1,5 ponto percentual em apenas dois pregões.
E aí vem a pergunta: "Celso, eu perdi a oportunidade?" E quem comprou lá em cima ganhou dinheiro? Ganhou, sim. Vou explicar o que aconteceu, como funciona esse ganho e por que não acho uma boa ideia sair correndo para comprar ou vender só porque as taxas se mexeram.
O que aconteceu com os juros e o Tesouro Direto
Não vou falar de política aqui. Goste você ou não do resultado do primeiro turno das eleições, o que importa para o nosso assunto é que o mercado financeiro reagiu de forma bem agressiva.
Na segunda-feira, os juros futuros despencaram: o DI futuro para janeiro de 2035 caiu de mais ou menos 14,13% para 12,8%. Isso chegou rapidinho aos títulos públicos, e a volatilidade foi tanta que o Tesouro Direto chegou a ficar temporariamente indisponível. Na bolsa, o Ibovespa subiu quase 10% no mesmo dia.
Mas repito o que disse na live: o mercado não está dizendo o que vai acontecer. Ele está colocando preço naquilo que acredita que pode acontecer. Na data da live, faltavam três semanas para o segundo turno, e nesse período o mercado ainda vai subir e descer várias vezes.
Por que a taxa do Tesouro cai se a Selic não mudou?
Quanto a Selic caiu de sexta para terça? Nada. Quando gravei a live, ela continuava em 13,75% ao ano. O caminho é outro:
- A expectativa fiscal, ou seja, como o mercado enxerga as contas públicas no futuro, gera um risco percebido.
- Esse risco mexe com os juros futuros, negociados na B3.
- Os juros futuros afetam as taxas dos títulos públicos.
Se o mercado enxerga um risco fiscal menor no futuro, ele exige um prêmio menor para emprestar dinheiro no longo prazo, e as taxas longas caem. Costumo resumir assim: o risco dita as taxas.
Isso não significa que o problema fiscal brasileiro acabou, só que as probabilidades mudaram e os preços reagiram. E, enquanto a Selic muda a cada 45 dias, os juros futuros mudam todos os dias. Daí o descasamento.
Marcação a mercado: quando a taxa cai, o preço sobe
Quem comprou o Prefixado 2032 a 14,21% na sexta ficou feliz da vida: o preço saiu de pouco mais de R$ 500 para cerca de R$ 535,64 em dois dias úteis, um ganho de aproximadamente 7%. No Tesouro IPCA+ 2032 também aconteceu: de cerca de R$ 3.090 para R$ 3.209, alta de 3,85%.
Isso é a marcação a mercado. Taxa e preço andam em sentidos contrários: um cai, o outro sobe. Imagine que você comprou a 14% na sexta e eu estou entrando hoje a 12,7%. O seu título ficou mais interessante que o meu, então vale mais. Se fosse o contrário, o seu valeria menos e o preço cairia.
É a mesma lógica da bolsa, onde comprador e vendedor definem quanto vale uma ação. Eu prefiro pensar em preço, como fazemos com o pãozinho na padaria: comprar barato e vender caro.
Já o Tesouro Selic e o Tesouro Reserva praticamente não têm marcação a mercado: não tiveram esse "bom demais", mas também não sofrem com os sustos. E nos títulos privados, como CDBs, LCIs e LCAs, essa estratégia não é possível.
- Preço do título sobe
- Quem comprou antes ganha
- Ex.: prefixado 2032 subiu cerca de 7% em dois dias úteis
- Preço do título cai
- Quem comprou antes vê o título desvalorizar
- Novos compradores pegam taxa maior
Títulos longos e curtos: qual a diferença?
No Tesouro IPCA+, na data da live, havia vencimentos 2032, 2040 e 2050. Nos mais longos, pequenas variações na taxa provocam grandes variações no preço. Nos curtos, a variação é menor.
Sempre ensinei que, ao pegar um título longo pensando em marcação a mercado, a ideia é vender antes do vencimento. Historicamente era assim, mas nos últimos 4 ou 5 anos o comportamento foi atípico. Eu ainda acredito que os longos vão dar marcação a mercado, mas, se isso não é confortável para você, os curtos também podem render, como o IPCA+ 2032 acabou de mostrar.
Eu perdi a oportunidade no Tesouro Direto?
Não necessariamente. Na data da live, o IPCA+ 2032 estava perto de IPCA + 6,95% e o prefixado 2032 em torno de 12,7%. Não são as taxas de sexta, mas continuam muito boas e podem fazer sentido dentro da estratégia da sua carteira.
Depois que acontece, fica fácil olhar o retrovisor e dizer "era óbvio". Não era. Na sexta, a discussão era se as taxas subiriam ou cairiam depois da eleição, e ninguém sabia o resultado.
O mercado não está dizendo o que vai acontecer. Ele está colocando preço naquilo que acredita que pode acontecer.
Depois que acontece, parece óbvio. Antes, ninguém sabia.
Vender e embolsar o lucro ou esperar? Os três cenários
Muita gente perguntou se deveria resgatar tudo, parte ou só o rendimento. A decisão é sua, mas eu mostrei três cenários:
- Cenário A, as taxas continuam caindo: quem comprou ganha ainda mais, e vender agora seria deixar de ganhar.
- Cenário B, as taxas se estabilizam: quem entrou travou uma taxa boa, como IPCA + algo perto de 7%.
- Cenário C, as taxas voltam a subir: o preço cai, e o lucro que não foi embolsado fica no esquecimento.
Qual vai acontecer? Eu não sei, e quem diz que sabe está chutando. Pessoalmente, gosto da ideia de dinheiro no bolso: ganhou uma graninha, embolsa. Se as taxas voltarem a subir, dá para comprar de novo.
Outra alternativa são entradas e saídas graduais: vender metade e, se as taxas continuarem caindo, ir vendendo mais um pouco. Acertar o dia perfeito é muito difícil. Li que cerca de 80% das previsões dos economistas erram o número, mas a maioria acerta a tendência. Por isso eu observo sempre a tendência.
E lembre: o título pode ser resgatado a qualquer momento, e o dinheiro cai na conta no dia útil seguinte.
Prazo e objetivo valem mais que a maior taxa
Investir em renda fixa não é só procurar quem paga mais. Cada título tem seu funcionamento, seu vencimento e, às vezes, carência. E o investimento precisa respeitar o seu perfil: tem que ser divertido, não sofrido.
Uma pergunta da live ilustra bem: CDB a 105% do CDI ou prefixado a 14,8%? O CDI fica cerca de 0,10 ponto abaixo da Selic, então estava em 13,65% ao ano. Pela taxa, o prefixado pagava mais. Mas qual é o prazo? Até uns 2 anos e meio, eu gosto da ideia. Acima disso, existe o risco de inflação: na crise sanitária global, ela chegou a dois dígitos, e eu, com 56 anos, passei pelo Plano Collor. Se você trava um prefixado de 5 anos e a inflação dispara, não tem salvação.
Um prazo inadequado pode transformar uma boa taxa em um investimento ruim. Antes de perguntar se a taxa vai cair ou subir, pergunte: quando vou precisar desse dinheiro?
Tesouro Selic, Prefixado ou IPCA+: para quem é cada um
- Tesouro Selic: para quem precisa de liquidez e não gosta do sobe e desce. É o título da paz no coração, e com a Selic a 13,75% na data da live a rentabilidade estava ótima.
- Tesouro Prefixado: faz sentido quando a taxa contratada atende aos seus objetivos e ao seu prazo.
- Tesouro IPCA+: para quem quer se proteger da inflação e preservar o poder de compra no longo prazo.
Prefixado e IPCA+ também permitem ganhar com a marcação a mercado, mas trazem mais emoção no caminho.
FOMO: cuidado para não correr atrás do mercado
Na data da live, a expectativa de inflação para 2026 tinha subido pela terceira semana seguida, para 5,01%, e o mercado esperava a Selic em 13,5% no fim do ano. Ainda havia questão fiscal, segundo turno e cenário internacional no radar. Dois dias de queda forte nas taxas não significam que começou uma linha reta para baixo.
Aquela ansiedade de ver o bonde passando tem nome: FOMO, do inglês fear of missing out, o medo de estar perdendo alguma coisa. Na sexta ninguém queria comprar; na terça todo mundo queria. Isso não é racional, e é seguindo o fluxo que muita gente perde dinheiro.
O investidor amador fica procurando a taxa perfeita. O investidor consciente vai construindo uma estratégia e uma carteira que funcionam sem precisar acertar um tiro na mosca. Vai ter Copom, inflação, segundo turno, dias de euforia e dias de medo. Você não precisa adivinhar todos eles para construir o seu patrimônio.
- Não persiga o mercadoSeguir o fluxo é como muita gente perde dinheiro
- Não aposte tudo numa única direção de jurosMonte uma carteira, não uma aposta
- Respeite os vencimentosPrazo alinhado ao objetivo do dinheiro
- Prefira entradas e saídas graduaisAcertar o dia perfeito é muito difícil
Uma reflexão além dos investimentos
Encerrei a live com um pedido. Cada um enxerga o mundo pela própria janela, e os algoritmos das redes sociais só reforçam o que já pensamos. Compreender não é concordar. Vote com a sua consciência, mas não deixe que uma eleição transforme alguém que você ama em inimigo. As eleições passam; os vínculos, se a gente cuidar, ficam.
Momentos da live
- 0:00 Os dois números: Tesouro Prefixado 2032 de 14,21% para cerca de 12,7% em dois pregões
- 5:03 Como o mercado reagiu à eleição: juros futuros despencam e Tesouro Direto fica indisponível
- 11:13 Por que a taxa caiu mesmo com a Selic parada em 13,75%
- 22:25 Marcação a mercado explicada: quando a taxa cai, o preço sobe
- 33:35 Diferença entre títulos IPCA+ curtos, médios e longos
- 46:49 Os três cenários para as taxas e a ideia de vendas graduais
- 57:02 Alerta sobre FOMO e os cuidados para não agir no impulso
- 1:06:08 Reflexão sobre divisão política e preservação dos vínculos
Assista à live completa no YouTube
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