Bolsa despenca, juros disparam: o que fazer com seus investimentos?
Quando gravei a live, em 27 de outubro de 2026, o mercado financeiro brasileiro tinha acabado de passar por um dia de muita turbulência. Depois de um domingo de emoção com o resultado das eleições, na segunda-feira a Bolsa de Valores despencou algo em torno de 13% a 14%. As taxas dos títulos públicos dispararam, e o dólar ficou muito volátil, chegando a subir cerca de 9% no dia.
Muita gente me perguntou: "E agora, Celso? Vendo minhas ações? Compro Tesouro IPCA+?" Neste artigo eu explico o que aconteceu e, principalmente, como você pode tomar decisões sem deixar que o medo determine o destino do seu patrimônio. E já combino com você: aqui a gente não discute política. Falamos de finanças e do que afeta o seu bolso. Costumo dizer que a gente não precisa acertar o futuro para investir bem. Precisa entender os riscos e construir uma boa estratégia.
Por que a Bolsa caiu tanto?
O mercado financeiro negocia expectativas. O mercado não reage apenas ao que acontece. Ele reage principalmente ao que as pessoas acreditam que vai acontecer.
Imagine que você tem um apartamento de R$ 500.000 e anunciam uma estação de metrô bem pertinho dele. O preço provavelmente sobe, porque as pessoas passam a acreditar que a região vai se valorizar. Tempos depois, anunciam o cancelamento da estação. O apartamento não perdeu nenhum quarto, mas o preço pode cair, porque as expectativas mudaram.
Na Bolsa foi parecido. O mercado estava precificando um determinado resultado nas eleições, ou seja, já tinha colocado esse resultado nos preços. Quando o resultado foi outro, os investidores reviram suas expectativas sobre a economia, e veio uma onda de vendas.
O que é alavancagem e por que ela acelera as quedas
Numa queda dessas, muitos grandes investidores não vendem porque querem. Eles vendem porque precisam. Isso tem a ver com a alavancagem.
Imagine alguém que tem R$ 100.000, mas opera na Bolsa como se tivesse R$ 300.000. Isso existe. No day trade de mini contrato de índice, por exemplo, dá para negociar um ativo de aproximadamente R$ 100.000 com cerca de R$ 1.000 na conta. Quando tudo sobe, é uma maravilha. Quando tudo cai, as perdas podem ser enormes. A corretora pode exigir mais dinheiro como garantia ou reduzir a operação na marra. Sem dinheiro, o investidor precisa vender.
Agora imagine milhares de investidores precisando vender ao mesmo tempo. As vendas aumentam, os preços caem, e mais gente precisa vender. É uma bola de neve descendo a montanha. Por isso, em alguns momentos, os preços caem muito mais rápido do que as mudanças na economia justificariam.
Desce pelo elevador, sobe pela escada
Uma ação de R$ 100 que perde 50% vai para R$ 50, e houve ações que perderam 50% naquela segunda-feira. Para voltar aos R$ 100, ela precisa subir 100%, ou seja, precisa dobrar. E isso vale no mundo inteiro.
Caiu 50%? Precisa subir 100% para voltar ao ponto de partida
Ação de R$ 100 que cai para R$ 50 precisa dobrar para voltar aos R$ 100
Por que as taxas dos títulos públicos dispararam
Pense numa família que ganha R$ 10.000 por mês e gasta R$ 12.000. Todo mês ela pede R$ 2.000 emprestados, e a dívida vai crescendo. Quem empresta fica cada vez mais preocupado e, uma hora, diz: "Para emprestar mais, vou ter que subir a taxa". As taxas sobem quando aumenta a preocupação de quem empresta.
Com o governo é parecido. Ele arrecada impostos, paga despesas e emite títulos públicos para se financiar. Quando gasta mais do que arrecada, sem contar os juros da dívida, temos o déficit primário. Quando arrecada mais do que gasta, temos o superávit primário. Guarde esses termos, porque você vai ouvir muito sobre eles nos próximos meses.
Quem investe no Tesouro Direto está emprestando dinheiro para o Brasil. Se os investidores se preocupam com a capacidade do governo de controlar a dívida, eles exigem juros maiores. Isso não tem a ver com gostar ou não de um político. É matemática financeira. Não importa quem esteja no governo, gastar permanentemente mais do que arrecada traz problemas.
E o governo pode deixar de pagar o título? Na minha visão, esse risco não existe, porque o governo pode imprimir dinheiro, coisa que nenhuma família pode fazer. Só que mais dinheiro na economia, sem produtos suficientes, faz os preços subirem e gera inflação. Resolve uma parte do problema e cria outra.
Quem tinha Tesouro Prefixado ou IPCA+ perdeu dinheiro?
Imagine que você emprestou dinheiro a 12% ao ano e, no dia seguinte, outras pessoas estão emprestando a 15%. Se você quiser vender o seu direito de receber, ninguém vai pagar o mesmo preço por ele, porque existe opção melhor. O seu título perdeu valor.
Foi o que aconteceu. Arredondando, o Tesouro Prefixado estava perto de 12% na sexta-feira antes das eleições e voltou para a casa dos 15%. Quando as taxas dos novos títulos sobem, os antigos, que pagam menos, perdem valor. Isso é a marcação a mercado: o preço do investimento é atualizado conforme as condições do mercado. Esse preço pode cair mesmo com o governo pagando normalmente suas obrigações.
Na live, uma aluna disse que não resgatou o Prefixado e achou que fez errado. Eu não acho. Hoje é fácil falar. Nas semanas anteriores eu disse que quem quisesse embolsar o lucro podia embolsar, mas que o cenário poderia melhorar ainda mais, ou não. Ninguém sabia o resultado. Quem embolsou se deu bem. Quem não embolsou voltou mais ou menos para onde estava antes do primeiro turno.
E quem vai levar o Tesouro IPCA+ até o vencimento? Dá bom, sim. Quem comprou IPCA + 5% ou + 6% lá atrás se protegeu da inflação. Em alguns períodos pode ganhar ou perder do CDI. Por isso eu monto a carteira com uma parte no CDI e outra protegida contra a inflação, buscando, na média, ficar acima do CDI.
Tesouro IPCA+ perto de 8% ao ano: vale a pena?
No dia da live, a tela do Tesouro Direto mostrava IPCA+ em torno de 7,78% ao ano, e houve título chegando perto ou acima de 8%. Pense numa aplicação que paga inflação mais 8%. Se a inflação de um ano for de uns 5% (na data da live estava por volta de 4,5%), o título renderia algo em torno de 13% brutos naquele ano. Com os juros compostos a conta muda um pouco, mas é isso a grosso modo. Uma parte acompanha a inflação, e a outra é o ganho acima dela, muito importante para quem constrói patrimônio para a aposentadoria.
Isso não significa colocar todo o seu dinheiro nesse título. Pense no prazo, com vencimentos como 2032, 2040 e 2050, e na necessidade de resgate. Pense também na oscilação de preço pelo caminho. Na carteira existem vários "dinheiros": o de curto, o de médio e o de longo prazo.
A Bolsa ficou barata depois da queda?
No mercado, você encontra dois produtos com 30% de desconto. Um está em promoção porque a loja quer renovar o estoque. O outro está perto do vencimento. Os dois ficaram baratos, mas não são compras igualmente boas.
Com as ações é igual. Algumas caíram só porque os investidores se assustaram. Outras podem ter mais dificuldade para ganhar dinheiro daqui para frente. Empresas muito endividadas sofrem com juros mais altos. Já exportadoras com produtos cotados em dólar podem se beneficiar da alta da moeda. Por isso umas caíram 50% ou 60%, outras 15% e algumas até subiram. Um banco que dá muito lucro não parou de lucrar do domingo para a segunda. Nesses casos, a queda pode ser oportunidade, mas é preciso analisar os fundamentos. Preço baixo não é a mesma coisa que investimento barato.
E os fundos imobiliários?
Se o preço estimado do seu apartamento alugado por R$ 2.000 cai, o inquilino não passa a pagar menos no mês seguinte. Preço e renda estão relacionados, mas são coisas diferentes. Mesmo assim, alguns fundos têm dívidas, imóveis vazios ou inquilinos em dificuldade. Não compre um fundo só porque caiu muito ou porque distribui um rendimento aparentemente elevado.
- Como a promoção para renovar estoque
- Investidores assustados venderam
- O negócio continua dando lucro
- Como o produto perto do vencimento
- Empresa pode ganhar menos daqui para frente
- Ex.: muito endividada com juros em alta
O que fazer com seus investimentos antes de buscar oportunidades
Oportunidades existem, mas primeiro organize sua vida financeira:
- Reserva da tranquilidade. Não gosto de dizer "tem que", mas aqui digo de boca cheia: tem que ter. É a ditadura da educação financeira. Você faz o que quiser, mas sem reserva fica em maus lençóis.
- Objetivos e prazos. O dinheiro que você vai usar daqui a um ano não pode ser tratado como o da aposentadoria daqui a 20 anos.
- Diversificação. Colocar tudo numa empresa, num título ou numa única aposta para a economia não é inteligente.
"Tudo ou nada" só existe na mesa de pôquer. A gente não precisa adivinhar o Banco Central nem o próximo governo. Precisa de uma carteira que faça sentido para a nossa vida.
- Tenha a reserva da tranquilidadeSem ela, qualquer turbulência vira problema
- Separe o dinheiro por objetivos e prazosCurto, médio e longo prazo têm tratamentos diferentes
- DiversifiqueNada de tudo ou nada numa única empresa, título ou aposta
Não deixe o medo nem a política comandarem seu dinheiro
Muitos de vocês trabalharam 30, 40 anos para construir o patrimônio que têm. Ele não pode ficar à mercê das emoções. O medo não pode nos fazer vender tudo num dia de queda. A ganância não pode nos fazer comprar só porque parece barato. E nossas preferências políticas não podem decidir o destino do nosso dinheiro.
Teremos governantes diferentes, crises, oportunidades e mudanças nos juros. Diante de qualquer situação, temos duas opções: ficar chorando ou levantar e trabalhar. A vida tem altos e baixos, e o nosso papel é aprender a navegar.
O objetivo de investir não é simplesmente acumular dinheiro. É ter liberdade, segurança e tranquilidade para viver bem. O dinheiro tem que trabalhar para a gente, e não a gente viver preocupado com ele.
Momentos da live
- 7:05 O que aconteceu no mercado: Bolsa em queda, juros dos títulos em alta e dólar volátil
- 16:23 O mercado negocia expectativas: o exemplo do apartamento e da estação de metrô
- 19:27 Alavancagem e a bola de neve de vendas forçadas
- 29:33 Contas públicas, déficit primário e por que as taxas sobem
- 36:40 Marcação a mercado: por que o título perde valor quando as taxas sobem
- 47:50 Tesouro IPCA+ perto de 8% ao ano: o que significa
- 50:57 A Bolsa ficou barata? Preço baixo não é investimento barato
- 1:00:00 Reserva da tranquilidade, objetivos e diversificação antes das oportunidades
Assista à live completa no YouTube
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